Inez Lemos Lopes

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IA na prática · 3 min de leitura

E na segunda-feira, o que muda?

A pergunta que eu faço no fim de toda palestra sobre IA — e por que quase nenhum escritório contábil consegue responder na hora.

Termino toda palestra com a mesma pergunta. Não é retórica, é literal: segunda-feira, nove da manhã, o que vai estar diferente no seu escritório?

Na maioria das vezes, o silêncio dura mais do que deveria. Não porque a sala não entendeu — entendeu, e normalmente estava animada. O silêncio é de outra natureza. É a distância entre achar a tecnologia impressionante e saber onde encaixá-la numa rotina que já está cheia.

Já disse isso em entrevista e repito aqui: uma coisa é se encantar com a tecnologia. Outra é transformá-la em rotina, processo e resultado.

O problema não é a ferramenta

Na convivência com centenas de escritórios — pelo Sescon-SP, pelo RDD10+, e pelo meu próprio — o padrão se repete com uma constância quase chata: a tecnologia chega mais rápido do que a estratégia para usá-la.

O escritório assina a ferramenta antes de decidir qual processo vai mudar. Aí a ferramenta fica lá, paga, com três pessoas mexendo por curiosidade e ninguém responsável por ela. Seis meses depois alguém pergunta se vale a pena renovar, e não existe um número para responder — porque nunca se combinou o que seria "valer a pena".

Isso não é falha de tecnologia. É falha de escopo.

O que eu fiz, na ordem em que fiz

Não comecei por software. Comecei construindo GPTs para problemas específicos do meu dia: uma dúvida tributária recorrente, um documento que eu relia toda semana, um retrabalho que me irritava. Coisas pequenas o bastante para eu conseguir avaliar sozinha se tinham funcionado.

Depois vieram os assistentes, que já resolviam pedaços inteiros de rotina, não perguntas soltas. E só então — quando ficou claro qual parte da operação aguentava ser automatizada de verdade — o software.

A ordem importa. Se eu tivesse começado pelo software, teria automatizado o processo errado com muita competência.

Três perguntas antes de assinar qualquer coisa

Eu levo essas três para o palco porque são as que eu me faço:

  1. Qual processo, com nome e sobrenome? Não "o fiscal". A conferência de notas de serviço tomadas do cliente X. Se você não consegue nomear, ainda não é hora.
  2. Quem é a pessoa responsável? Uma pessoa, não um comitê. Alguém que vai olhar o resultado toda semana e dizer se melhorou.
  3. Como você vai saber que valeu? Horas devolvidas, retrabalho eliminado, prazo que parou de estourar. Escolha uma medida antes, não depois.

Nenhuma delas é sobre inteligência artificial. Todas são sobre gestão. É por isso que escritório que já tem processo desenhado adota IA rápido, e escritório desorganizado compra ferramenta e continua desorganizado — só que com uma assinatura a mais.

O que não vou dizer

Não vou dizer que a IA vai substituir o contador. Não acredito nisso e não é o que eu vejo acontecendo na minha operação, que é o lugar de onde eu falo.

O que eu vejo é mais banal e mais útil: tarefas que consumiam tardes inteiras hoje consomem minutos, e o tempo que sobrou foi para conversar com cliente. Isso não é uma revolução de palco. É uma segunda-feira diferente da anterior.

Que era exatamente a pergunta.

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Da curiosidade ao software

O caminho real de adoção de IA num escritório contábil, incluindo o que não funcionou. A sala sai com um processo escolhido e uma pessoa responsável por ele.

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Tecnologia aproxima. Conversas transformam. Pessoas inspiram.
Camila Murta, advogada, sobre a tarde de IA do projeto amIgAs

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