Eu já contei aqui que joguei um projeto inteiro fora. O que eu não detalhei foi o motivo, e ele é simples: eu automatizei um processo que eu ainda não entendia.
Funcionava. Rodava direitinho. E reproduzia, com muita eficiência, um jeito de trabalhar que era ruim — só que agora ruim e rápido, o que é pior, porque fica mais difícil de enxergar.
A lição virou um exercício de vinte minutos que eu faço sempre antes, e que não precisa de ferramenta nenhuma.
Uma folha, uma caneta, um processo
Literalmente papel. Vou explicar no fim por que não no computador.
Escolha um processo — não o escritório inteiro. Aquele que mais gera retrabalho. Desenhe quatro colunas:
O que entra. O que chega, de quem, em que formato, e em que estado. "Planilha do cliente, por e-mail, cada mês num layout diferente" é uma resposta muito melhor que "planilha".
Quem toca. Cada pessoa que mexe naquilo, na ordem. Inclusive você. Inclusive quem só confere.
O que sai. O resultado, e para quem vai.
Onde para. E essa é a coluna que importa: em que ponto aquilo fica esperando. Fila de alguém, aprovação, informação que falta, sistema que não abre.
O que o desenho mostra e você não sabia
Três coisas aparecem quase sempre, e nunca são as que a gente esperava.
O passo que existe só porque sempre existiu. Alguém confere uma coisa que já foi conferida antes. Alguém salva uma cópia num lugar que ninguém mais abre. Ninguém decidiu isso — foi sedimentando.
A espera, que é maior que o trabalho. Você soma o tempo das pessoas mexendo e dá quarenta minutos. O processo leva três dias. A diferença toda é fila. E fila não se resolve com ferramenta mais rápida.
O retrabalho e a causa dele. Normalmente a causa está lá na primeira coluna: entra torto. Melhorar o que entra resolve mais que automatizar o que vem depois.
Só então decida o que automatizar
Com o desenho na mão, a escolha muda de natureza. Deixa de ser "o que dá para automatizar" e passa a ser "onde está a dor".
E aí uma regra que eu aprendi errando: automatize a espera e o retrabalho, não o julgamento.
Espera e retrabalho não têm dúvida — são sempre iguais, e é isso que faz uma máquina ser melhor que uma pessoa naquilo. Julgamento é o contrário: é onde a sua experiência vale, e é justamente o que você não quer terceirizar, nem para ferramenta nem para ninguém.
O meu erro foi automatizar um trecho que tinha julgamento dentro. A máquina decidiu igual todas as vezes, porque é o que máquina faz. Só que aquelas vezes não eram iguais.
Por que à mão, e não no computador
Por dois motivos, e o segundo é o de verdade.
O primeiro: ferramenta de desenho vira uma tarde escolhendo cor de caixinha. O papel te obriga a terminar.
O segundo: na folha você não tem espaço para fingir que entendeu. Quando o passo não está claro, a seta não sai — e você fica olhando a folha sabendo que precisa perguntar para alguém. No computador dá para desenhar uma caixa bonita chamada "análise" e seguir em frente com um buraco dentro dela.
Esse buraco é exatamente onde a automação quebra depois.
O teste antes de gastar dinheiro
Quando o desenho estiver pronto, mostre para quem executa o processo — não para quem gerencia.
Se a pessoa disser "não é bem assim que a gente faz", você acabou de economizar semanas. Essa frase é o melhor retorno que existe, e ela quase nunca aparece antes de alguém desenhar.
Vinte minutos e uma folha. É o passo mais barato do projeto, e é o único que, se você pular, torna todos os outros mais caros.
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