Nos últimos dois anos, mediei painéis sobre inteligência artificial em convenções da nossa profissão — na CONVECON, na regional de Santo André, no encontro de empresas de serviços contábeis. Em todos, o palestrante era outra pessoa. E em todos eu aprendi coisas que não teria aprendido na plateia.
Escrevo isso porque mediar é uma porta subestimada, especialmente para mulheres que querem ocupar espaço e acham que precisam começar com uma palestra própria.
Não precisam.
Mediar não é apresentar
Existe um jeito de mediar que é ler a bio do convidado e passar o microfone. Não é mediação, é locução.
Mediar de verdade é fazer três coisas:
Traduzir. O especialista fala do lugar dele. A sala está em outro. Alguém precisa perguntar "isso na prática significa o quê para um escritório de cinco pessoas?" — e essa pergunta é a mediação.
Segurar o tempo. Vinte minutos de fala e dez de perguntas viram quarenta de fala e zero de perguntas se ninguém segurar. E a parte que a plateia mais aproveita é sempre a que fica no fim.
Puxar o que não foi dito. Todo palestrante tem um ponto que ele evita, porque é complexo ou desconfortável. Perguntar aquilo é o serviço que você presta à sala.
Por que é uma boa porta
Porque o peso do conteúdo é do convidado, e o mérito da conversa é dividido.
Você entra numa mesa importante sem precisar ter a palestra pronta. Conhece de perto quem está à frente do assunto. E a sala te vê conduzindo — o que é diferente, e às vezes mais forte, do que ver você discursando.
Para quem está construindo presença, essa é uma das formas de menor atrito.
O que eu faço antes
Converso com o convidado antes. Sempre.
Não para ensaiar, mas para saber o que ele quer que aconteça, e para combinar duas ou três perguntas que eu vou fazer se a sala não fizer. Nunca precisei usar todas — mas nunca fiquei sem ter o que perguntar.
E leio a plateia: quem está ali, de que tamanho são os escritórios, o que essa gente vai ter que decidir na segunda-feira. É de onde saem as boas perguntas.
O convite não costuma vir sozinho
Ele vem quando alguém sabe que você entende do assunto e que você toparia.
Ou seja: as duas coisas precisam ser ditas em algum lugar. Escrever sobre o tema, comentar publicamente, participar de comissão, aparecer nas discussões da entidade. Não é autopromoção — é deixar disponível a informação de que você existe e que topa.
A contabilidade é uma profissão majoritariamente feminina. As mesas de decisão, não. Isso não muda por decreto: muda quando mais mulheres estão visíveis e disponíveis quando alguém precisa preencher uma cadeira.
Mediar um painel é uma cadeira. Comece por ela.
Levar para o seu evento
Programadas para brilhar
Ocupar cadeira, cobrar por valor e parar de pedir licença para liderar. A sala sai trocando contato e com uma pauta que continua viva na entidade.
Ver a palestra →