Quando me perguntam como a Trady chegou a ter software próprio, a resposta que esperam é uma decisão estratégica numa sala de reunião. Não foi.
Foi uma sequência de coisas pequenas, na ordem em que eu conseguia julgar se tinham funcionado.
Primeiro os GPTs
O primeiro foi um GPT de IRPF. E não foi por acaso.
O imposto de renda é a tarefa mais bem-comportada que existe para um primeiro teste: repete todo ano, tem uma quantidade enorme de perguntas quase idênticas, e eu conheço o assunto bem o suficiente para bater o olho na resposta e saber na hora se está certa ou errada.
Essa última parte é a que importa. Eu não precisava de ninguém para me dizer se tinha funcionado — eu mesma conseguia julgar.
Depois vieram outros, sempre para problemas pequenos e específicos do meu dia: um documento que eu relia sempre do mesmo jeito, um retrabalho que me irritava havia anos. Sem comitê, sem projeto, sem consultoria.
Cheguei a compartilhar o de IRPF publicamente, no Instagram. Não como produto — como quem mostra o que está fazendo. E a reação me ensinou uma coisa que eu não esperava: muita gente não estava travada na ferramenta, estava travada em não saber que aquilo era possível.
Isso importa mais do que parece. A maior armadilha na adoção de IA é começar por algo grande demais para você conseguir dizer se deu certo.
Depois os assistentes
Quando as perguntas soltas viraram rotinas inteiras, o desenho mudou. Não era mais "me ajuda com isso", era um processo rodando: RPA, Make e n8n costurando etapas que antes alguém fazia à mão.
Aqui entrou o que eu não tinha no começo: medir. Quanto tempo aquilo levava antes. Quanto leva agora. Quantas vezes por mês acontece. Sem esses três números, automação vira sensação — e sensação não sustenta decisão.
Só então o software
O que sobreviveu ao uso diário virou produto. Não o que era mais bonito na demonstração: o que continuou sendo usado depois que a novidade passou.
Essa é a diferença entre demonstrar tecnologia e depender dela. Demonstrar é fácil — qualquer coisa funciona numa tela preparada. Depender é outra história: quando o prazo está em cima e o cliente esperando, ou funciona, ou você faz na mão às onze da noite.
Essa parte é longa demais para caber aqui, e é a que tem mais aprendizado — e mais tropeço. Vou contar em série, nos próximos textos: como decidimos construir em vez de comprar, o que quebrou no caminho, e o que eu faria diferente.
O que não funcionou
Duas coisas, para ser honesta.
Ferramenta antes de processo. Assinei coisa que ficou parada. Ninguém era responsável, ninguém media nada, e seis meses depois a pergunta "vale renovar?" não tinha resposta — porque nunca combinamos o que seria "valer".
Treinar todo mundo ao mesmo tempo. Não funciona. Funciona treinar uma pessoa que quer, deixar ela mostrar o resultado, e esperar a curiosidade fazer o resto. Curiosidade se espalha; obrigação não.
Se eu recomeçasse hoje
Faria na mesma ordem. Não por nostalgia — porque a ordem é o método.
Cada etapa me deu o que eu precisava para julgar a seguinte. Se eu tivesse começado pelo software, teria automatizado o processo errado com muita competência.
Uma coisa é se encantar com a tecnologia. Outra é transformá-la em rotina, processo e resultado. Entre uma e outra tem trabalho, e o trabalho é escolher pequeno o bastante para conseguir enxergar se funcionou.
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Da curiosidade ao software
O caminho real de adoção de IA num escritório contábil, incluindo o que não funcionou. A sala sai com um processo escolhido e uma pessoa responsável por ele.
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