Inez Lemos Lopes

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Bastidores & trajetória · 3 min de leitura

Por que eu escrevi software em vez de assinar mais um

Não foi preço. Foi que os sistemas que a gente já pagava não conversavam entre si — e a ponte era sempre uma pessoa exportando PDF.

Quando eu conto que a gente construiu a nossa própria plataforma, a pergunta vem quase sempre com outra escondida atrás: por que não comprou?

Porque comprar não resolvia o problema que eu tinha.

O mercado não sofre de falta de ferramenta

Sofre do contrário. Tem software demais. Tem três ferramentas que fazem quase a mesma coisa, cada uma com um detalhe que a outra não tem — e como quase ninguém tem tempo de avaliar isso a fundo, o escritório acaba comprando as três.

Aí você tem um custo financeiro, um custo operacional e uma gestão pesada só para manter de pé o que você comprou. Nenhum desses três custos aparece na proposta comercial.

A gente já passou por essa fase. Não vou fingir que não. Só que há muitos anos a gente entendeu que precisava simplificar — porque a burocracia que já é nossa por obrigação legal não deixa margem para carregar mais complexidade por escolha.

O problema não é o preço. É que eles não conversam

Essa é a parte que eu demorei a saber nomear.

O nosso trabalho é volume: volume de informação, volume de dado, volume de documento. E entre um sistema e outro não existe API — os sistemas não se falam. Então a ponte vira uma pessoa.

Alguém trabalha numa ferramenta, salva em PDF, em Excel ou em .docx, e leva aquilo para a outra ferramenta. Para fazer uma análise. Para completar uma informação que faltava no sistema principal. Para conseguir entregar ao cliente um relatório que ele entenda, porque o relatório que sai pronto não é escrito na língua dele.

Esse é o gargalo. Não é o software ser caro. É ele ser uma ilha.

O que eu ouvi quando fui perguntar

Eu levei essa conversa para vários fornecedores nossos. A resposta foi sempre a mesma palavra: segurança.

Eu entendo a palavra. Eu trabalho com informação de cliente, então cuidado com dado não é assunto que eu trate de leve — não é isso que eu estou discutindo aqui.

O que eu não aceito é a palavra usada como porta fechada. Porque a gente já compartilha dado, todo dia, com a Microsoft e com o governo. Ninguém chama isso de imprudência.

Falta de estrutura para abrir uma integração é falta de estrutura. Chamar isso de segurança é trocar o nome do problema.

O preço de não ter a ponte

E o preço existe, ele só está distribuído onde ninguém olha.

Quando a ponte não vem pronta, o escritório constrói a ponte. A gente gasta mais fazendo automação, usando mais inteligência artificial do que precisaria, para tapar um buraco que não deveria estar lá. Isso trava o processo inteiro e deixa tudo mais difícil do que tem que ser — ainda mais dependendo do porte do escritório.

Ou seja: a conta chega de qualquer jeito. Ou você paga em licença, ou você paga em retrabalho, ou você paga construindo.

Por que a gente escolheu construir

Porque construir era a única das três opções em que o gasto virava patrimônio.

Não foi para fazer bonito, e não foi porque eu sou desenvolvedora — eu sou contadora. Foi porque a alternativa era continuar pagando três vezes pelo mesmo problema e continuar com uma pessoa do time no meio, transformando PDF em planilha.

Nos próximos textos eu conto como foi. Inclusive o que quebrou, o que a gente jogou fora e quanto tempo levou de verdade — que é sempre a parte que ninguém publica.

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