Software novo entregue a uma equipe que já tem prazo em cima não é presente. É mais uma coisa para aprender numa semana que já estava cheia.
Essa parte demorou mais que o código.
A primeira pessoa a usar de verdade
Foi a Fabiana, uma das minhas sócias.
Não foi escolha aleatória. Ela é especializada em processos — então ela não ia me dizer se era bonito, ia me dizer se funcionava. Usou, apontou falha, apontou o que faltava, apontou o que ela enxergava e eu não estava vendo.
Quem valida o primeiro módulo define o resto. Se a primeira pessoa é alguém que quer te agradar, você recebe elogio e perde meses.
A resistência não era preguiça
Aqui está a parte que eu levei tempo para entender.
A gente começou a usar inteligência artificial muito cedo. E, naquele momento, os modelos ainda não davam conta do mundo contábil — a resposta vinha genérica, vinha errada, vinha sem entender a lógica do que a gente faz.
Eu levava para o time. Não dava certo. Eles desanimavam.
Então quando eu chegava de novo pedindo que usassem, que perguntassem, que testassem, eu não estava lutando contra preguiça. Estava lutando contra memória: eles já tinham experimentado e já tinham se decepcionado. Não foi uma pessoa, foram algumas. E não é falta de vontade — é falta de familiaridade com a ferramenta, somada a uma primeira impressão ruim.
Isso travou o processo por um período. Passou. Mas só passou quando o resultado ficou bom o suficiente para falar sozinho, sem eu precisar defender.
Em três meses a gente construiu uma plataforma inteira, complexa para o nosso universo.
O sinal de que tinha pegado
Não foi um discurso, não foi um treinamento. Foi um número que eu não esperava.
Eu liberei o primeiro módulo no finalzinho de março, começo de abril. No fim de abril, começo de maio, eu já tinha por volta de 50 pedidos de melhoria.
Cinquenta pedidos. Não reclamação: pedido. É quando alguém para de dizer que não funciona e começa a dizer que podia fazer também outra coisa. Ali eu soube que a chave tinha virado. Uns 90% do time já estava usando as automações, cada um no seu departamento.
Eu ia liberando módulo por módulo, departamento por departamento. Passava os fins de semana construindo, e na segunda, na reunião, virava presente. Ver eles motivados foi a melhor parte de tudo isso.
A gente até criou um ranking de quem mais colabora com ideia de melhoria — porque se o pedido é o sinal de adoção, o pedido merece crédito.
O que eu faria diferente
Isso eu diria para qualquer pessoa que esteja começando: traga o time desde o começo.
Eu não fiz assim. Os primeiros — imposto de renda, depois o fiscal — eu fazia todo o processo sozinha. Só depois eu comecei a compartilhar para eles executarem, para sair daquela situação em que tudo dependia de mim.
E foi exatamente aí que o projeto ganhou corpo. Contábil ganhou o seu, departamento pessoal ganhou o seu, agora estou fazendo legalização e financeiro. Tem muita coisa boa acontecendo — e só foi possível porque eu destravei.
Hoje o combinado é claro: eu construo, eles testam e validam. A opinião deles é o que faz o produto existir.
Se eu tivesse forçado essa divisão desde o primeiro dia, teria chegado no mesmo lugar com menos fim de semana gasto. Aprendi rápido, mas aprendi depois.
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Da curiosidade ao software
O caminho real de adoção de IA num escritório contábil, incluindo o que não funcionou. A sala sai com um processo escolhido e uma pessoa responsável por ele.
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