Inez Lemos Lopes

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Mentoria & influência feminina · 3 min de leitura

Como se entra numa entidade de classe

A resposta que esperam é convite ou padrinho. A real é mais sem graça e muito mais disponível — e começa numa comissão, não numa chapa.

Quando as pessoas descobrem que eu estou numa diretoria de entidade, a pergunta vem quase sempre com a resposta já embutida: "quem te convidou?"

Elas esperam ouvir um nome. Um padrinho, uma indicação, uma sorte.

A resposta verdadeira é mais sem graça — e é justamente por isso que ela é boa notícia. Porque o caminho sem graça é o que está disponível para qualquer pessoa que queira percorrer.

Ninguém entra pela porta da diretoria

Esse é o mal-entendido que trava mais gente.

Quem olha de fora vê a chapa, a eleição, a posse, a foto. E conclui que o caminho começa ali — e que, como não tem acesso àquilo, não tem caminho.

A chapa é o fim do percurso, não o começo. Quem está ali chegou por dentro, e por dentro quer dizer um lugar bem menos glamouroso: comissão, grupo de trabalho, comitê temático. É lá que o trabalho acontece, e é lá que entram os que chegam.

A boa notícia é que essa porta é quase sempre aberta. Comissão costuma precisar de gente. Falta gente disposta a aparecer, não falta vaga.

O que se pede de quem chega

Três coisas, e nenhuma delas é currículo.

Presença. Aparecer nas reuniões, inclusive nas que não têm graça. Você vai descobrir rápido que metade das pessoas some depois da segunda. Continuar aparecendo já te coloca num grupo pequeno.

Entrega. Assumiu uma tarefa, entregou no prazo combinado. Escrevendo assim parece óbvio, e eu garanto que não é: em trabalho voluntário, quem entrega o que prometeu na data que prometeu é raro. Essa pessoa vira a primeira lembrada da próxima vez.

Tempo. Isso leva anos, não meses. Não é fila, não é mérito acumulado em pontinhos — é o tempo que as pessoas levam para saber quem você é e como você trabalha. Não tem atalho e, honestamente, não deveria ter.

O que ninguém avisa antes

Vou dizer a parte que costuma ficar de fora, porque seria fácil vender só o lado bonito.

É trabalho voluntário. Toma horas da sua semana — horas reais, que saem de algum lugar, e o lugar normalmente é o seu descanso ou o seu escritório. Tem reunião que rende nada. Tem assunto que anda devagar. Tem vez que você sai pensando que poderia ter usado aquela tarde de outro jeito.

E tem o outro lado, que compensa: você conhece a profissão por dentro. Entende como as decisões que chegam até a gente foram tomadas. Fica sabendo das coisas antes. Constrói uma rede que nenhum evento pago constrói, porque não é troca de cartão — é gente que trabalhou junto.

E, de vez em quando, empurra alguma coisa que melhora a vida de muita gente que você nunca vai conhecer. Esse é o motivo que segura quando os outros não seguram.

Por onde começar essa semana

Concreto, porque o texto não serve para nada se parar na reflexão:

Descubra o que existe. Sindicato da sua região, conselho regional, associação da sua cidade. Todos têm comissões e grupos de trabalho, e a lista costuma estar no site ou a uma pergunta de distância da secretaria.

Escreva para a secretaria. Um parágrafo: quem você é, o que você faz, em qual comissão gostaria de participar. Não precisa de apresentação formal nem de intermediário. Esse e-mail é mais curto do que você está imaginando.

Vá numa reunião como ouvinte. Boa parte é aberta. Sentar uma vez e escutar já te diz se aquilo é para você — e já faz as pessoas te verem ali.

Por que eu insisto nisso com mulheres

Porque a conta não fecha.

A contabilidade é uma profissão majoritariamente feminina. As mesas de decisão, não. E isso não muda por decreto nem por post de campanha: muda quando, na hora de preencher uma cadeira, existem mulheres visíveis e disponíveis para preencher.

Visível e disponível são duas condições, e as duas dependem de a gente aparecer em lugar onde alguém possa nos ver trabalhando.

Comissão é esse lugar. É o degrau mais baixo e o mais acessível de todos — e é por onde passa, sem exceção, quem está lá em cima.

Comece por ele.

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